Consultas anuais no ginecologista podem ajudar a identificar câncer, doenças cardíacas e distúrbios hormonais antes dos sintomas aparecerem
Sendo adolescente, adulto ou idoso, consultar um ginecologista permite observar mudanças no corpo, no ciclo menstrual, na pressão arterial e até no estado emocional. O Ministério da Saúde recomenda a visita pelo menos uma vez a cada ano.
A ginecologista Vitória Espíndola, da Maternidade Brasília e do Hospital Brasília, explica que a avaliação periódica aumenta as chances de diagnósticos precoces e facilita a aplicação de tratamentos menos invasivos.
“A área da ginecologia costuma ser a especialidade que mais diagnostica doenças nas mulheres porque, culturalmente, o ginecologista é o médico de referência da mulher. Como realizamos uma anamnese completa e exames físicos detalhados, acabamos funcionando como uma ‘porta de entrada’ para o sistema de saúde, identificando sinais precoces de doenças que vão muito além do sistema reprodutor”, afirma Vitória.
Importância do rastreamento de doenças
Grande parte dos diagnósticos feitos no consultório ginecológico está relacionada ao câncer de colo do útero e ao câncer de mama. Isso ocorre porque ambas doenças possuem exames de rastreio capazes de identificar alterações antes mesmo do surgimento de sintomas.
No caso do colo do útero, o método prioritário atualmente é o teste de HPV, considerado mais sensível para detectar a presença do vírus associado ao desenvolvimento do tumor. O Papanicolau continua sendo utilizado como alternativa em locais onde o teste de HPV não está disponível ou como exame complementar em situações específicas.
A importância desse acompanhamento está no fato de que a maioria das lesões iniciais não causa sinais perceptíveis. Estima-se que cerca de 80% das alterações precursoras do câncer de colo sejam assintomáticas. Sem o exame preventivo, essas mudanças podem passar despercebidas muito facilmente.
Na mama, a lógica é semelhante. A mamografia consegue identificar nódulos muito pequenos, que ainda não podem ser sentidos no toque e que podem surgir até dois anos antes de se tornarem clinicamente evidentes.
Por isso, quanto mais cedo o diagnóstico, maiores as possibilidades de tratamentos eficazes, com taxas de cura que podem chegar a 95% nos estágios iniciais.
Além de permitir a detecção precoce, o rastreio regular está associado à redução da mortalidade: estudos mostram que a realização adequada do teste de HPV diminui a incidência de câncer de colo, enquanto a mamografia periódica está relacionada à queda na mortalidade por câncer de mama.

Procura pelo ginecologista ainda é baixa no Brasil
Apesar da recomendação de consultas anuais ao longo da vida, milhões de brasileiras ainda não mantêm acompanhamento regular. Dados de uma pesquisa da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) realizada em parceria com o Datafolha mostram que, em média, 5,6 milhões de mulheres no país não têm o hábito de ir ao ginecologista.
O levantamento também aponta que cerca de 4 milhões nunca procuram atendimento especializado em saúde íntima. Além disso, 16,2 milhões ficam mais de um ano sem passar por consulta.
Os especialistas de saúde contam que o principal erro é buscar atendimento só quando aparecem sintomas. As diretrizes indicam que a primeira avaliação ocorra após a primeira menstruação ou antes do início da vida sexual, para orientações preventivas. O rastreio do câncer de colo começa aos 25 anos, e a mamografia é recomendada a partir dos 40, conforme o Ministério da Saúde.
“Além de estar errado ir à consulta apenas quando há sintomas, outro ponto é interromper o acompanhamento após iniciar um relacionamento estável ou após a menopausa, acreditando que não há mais necessidade de consultas. A prevenção deve ser contínua ao longo da vida”, orienta a ginecologista e mastologista Patrícia Lopes, da clínica AMO, em Salvador.



