29 de abril de 2026 16:12

PF investiga entrada de malas sem fiscalização em voo com Motta, Ciro Nogueira e dono de bets

Itens do piloto entraram sem inspeção. Voo levava empresário do “tigrinho”, Hugo Motta, Ciro Nogueira e deputados; caso tramita no STF

Polícia Federal investiga se um auditor da Receita Federal cometeu os crimes de prevaricação e descaminho ao permitir que bagagens de um voo que transportava o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e o senador Ciro Nogueira (PP-PI) entrassem no Brasil sem fiscalização.

Segundo a PF, cinco volumes levados pelo piloto José Jorge de Oliveira Júnior ingressaram no país sem passar por raio-x na noite de 20 de abril de 2025. O caso ocorreu no retorno de uma viagem à ilha de São Martinho, descrita pela corporação como uma “ilha caribenha conhecida por ser um paraíso fiscal desde 2016”.

O voo foi feito em um avião particular de Fernando Oliveira Lima, o “Fernandin OIG“, apontado como operador de plataformas de apostas ligadas ao chamado jogo do tigrinho. Em novembro de 2024, ele foi ouvido pela CPI das Bets e negou ser dono do jogo.

Além de Motta e Nogueira, estavam a bordo, de acordo com a PF, os deputados Dr. Luizinho (PP-RJ) e Isnaldo Bulhões (MDB-AL). A lista de passageiros incluía ainda o ex-vereador de Teresina Victor Linhares, alvo da Operação Carbono Oculto, que investiga ligações entre o crime organizado e o setor de combustíveis.

A presença de autoridades com foro privilegiado levou o caso ao Supremo Tribunal Federal (STF) em 13 de abril deste ano. Caberá ao ministro Alexandre de Moraes decidir se a Corte é competente para analisar o caso. Na semana passada, Moraes pediu manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR).

A Polícia Federal destacou que não é possível dizer “categoricamente a quem os volumes pertencem ou seu conteúdo”. Ao defender que o caso fosse enviado ao STF, o delegado Flávio Vieitez Reis apontou que o avanço da investigação pode indicar o envolvimento de autoridades em “condutas ilícitas”.

“Salvo melhor juízo, entendo ser temerária a continuidade das investigações sem a apreciação de tal situação pelo Poder Judiciário”, escreveu em janeiro de 2026.

Ao Metrópoles, Fernando Oliveira Lima afirmou ter conversado com José Jorge de Oliveira Júnior. Segundo ele, o piloto disse que os volumes apontados pela Polícia Federal eram “itens pessoais” e que o desembarque ocorreu dentro dos procedimentos normais.

O desembarque

Imagens do circuito de segurança do São Paulo Catarina Aeroporto Executivo Internacional, em São Roque (SP), analisadas pela PF mostram a sequência do desembarque:

  • às 21h32, o piloto passou pelo raio-x com duas bagagens; e
  • minutos depois, por volta das 21h40, ele retornou com sete volumes e contornou o pórtico de detecção de metais, sem submeter os itens à inspeção.

“[Ele] retorna passando por fora do pórtico de detecção de metais, sendo que, por volta das 21h40, ele passa com 7 (sete) volumes, sem submetê-los à fiscalização pelo raio-X, sendo que 2 (dois) dos volumes aparentam os que ele carregava ao retornar pelo raio-X pela primeira vez”, diz o relatório.

As imagens obtidas pelo Metrópoles indicam que o auditor Marco Antônio Canella acompanhou a movimentação e permitiu a passagem dos volumes “sem a devida fiscalização”.

“É possível constatar que o auditor fiscal da Receita Federal permite passar sete volumes sem a devida fiscalização”, afirma a PF.

Registros dos Agentes de Proteção da Aviação Civil (APACs) apontam que, no mesmo desembarque, o auditor também descumpriu procedimentos, ao permitir que garrafas e eletrônicos permanecessem dentro das bagagens durante a inspeção, o que pode indicar uma “irregularidade generalizada”.

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Bagagens que não passaram por fiscalização no desembarque do piloto José Jorge de Oliveira Júnior, segundo a PF
Imagens do desembarque do piloto José Jorge de Oliveira Júnior, no São Paulo Catarina Aeroporto Executivo Internacional

No caso do piloto do voo de Motta, a PF destacou que o auditor permitiu a passagem de todas as bagagens por fora do detector de metais, sem qualquer fiscalização. Segundo a corporação, o piloto empurrava um carrinho com sete volumes:

  1. sacola plástica;
  2. aparentemente, uma caixa de papel;
  3. sacola de papel;
  4. edredom;
  5. mala de viagem;
  6. aparentemente, uma caixa; e
  7. uma mochila.

Ao analisar a investigação da PF, em janeiro deste ano, a procuradora da República Ana Flávia Nóbrega Cavalcanti Ugatti afirmou que não era possível descartar a participação de autoridades com foro privilegiado nas condutas ilícitas investigadas.

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